A altura de partida chega. Mais tarde ou mais cedo. Há uma altura certa para o virar de costas. Nunca nos apercebemos qual é. E sem dar-mos conta, acarretamos histórias antigas que deveriam já estar demolidas há algum tempo. E também há uma altura em que aprendemos a ser simpatizantes do sofrimento, e a ser frios com tudo o que nos rodeia, para que já nada nos afete. Reparei que nos últimos oito meses da minha vida, ela mudou radicalmente. Partiram pessoas que nunca pensei que me deixassem, e chegaram pessoas que nunca imaginei que fizessem parte dela. Às vezes, dou por mim a pensar se é isto o que quero. E como definiria a minha vida, se o mundo acabasse amanhã.
A verdade é que, quando nos espetam a primeira e segunda facada, também não deixaremos que a terceira aconteça. Que nos prendemos a pessoas que nunca se prenderiam a nós e por nós. E que tudo o que mais gostamos, é inevitavelmente tudo aquilo que mais nos custa a despedir. Ensinaram-me um dia a gostar das pessoas e aceitá-las como elas são. A criar laços eternos. E não tenho vocação para os cortar. Neste momento, sei que a minha vida não faz sentido. Sei que tenho as melhores pessoas por perto, mas que tudo aquilo que fez parte do meu dia-a-dia até hoje, deixou-me para trás. Há uma altura que eu também irei deixar tudo para trás. Não sei como. Não sei porquê. Mas terá de acontecer. Laços eternos já não se encontram. Laços despedaçados já não se fortificam. Amanhã, é tarde mais. Não sabemos até quando estaremos aqui. O melhor, é deixar as fotografias para trás. Rasgar as folhas e as pequenas memórias. Parte da minha vida acaba aqui. Mas não toda.
