Numa noite de café com canela, sentou-se a meu lado um amigo meu, um grande amigo meu, melhor dizendo. Adoro conversar, mas tenho uma preferência muito especial por aquelas que são boas conversas, e sobretudo, as que são construtivas. Falar sobre o passado, de tudo o que nos trouxe até aqui, e nos tornou naquilo que hoje somos, poderá ser dos assuntos mais complicados que poderemos abordar. Não por falta de palavras, mas porque nunca sabemos quais as expressões certas a usar para dar-mos voz aquela que é a nossa vida. É complicado falar de sentimentos, e admiro as pessoas que o fazem sem preconceito.
Sentou-se mesmo à minha frente, e disse-me num tom grave "Tu nunca foste capaz de ver maldade nas pessoas, e quando eu era da tua idade, era como tu". Manteve os olhos concentrados em mim, a sua voz não estremeceu, e não se desviou... Hoje, estas mesmas palavras surgem em eco na minha cabeça, quando o passado lembra-se de bater à minha porta.
Demorei algum tempo a responder-lhe, até que lhe disse: "Se eu visse maldade em todos os gestos que as pessoas têm comigo, provavelmente nunca teria sido tão feliz como fui, e não seria metade daquilo que sou hoje."
Isto para dizer que não importa onde estamos, mas o caminho que percorremos para chegar até aqui. Tenhamos ou não cometido os erros mais grotescos do mundo, estamos em constante mudança, em constante aprendizagem. No nosso caminho, vadiam tantas almas perdidas, que seria impossível que todas nos acompanhassem até ao resto da nossa jornada.
Imaginemos a vida como um puzzle de várias cores e formas: tantos tons iguais, tantas linhas semelhantes, tantas peças que se encaixam até que um dia te apercebes que outra complementará melhor aquele lugar. E é quando encontramos o encaixe perfeito, que percebemos o que a vida nem sempre é aquilo que idealizamos construir.
Ninguém disse que viver era fácil, apenas nos prometeram que valeria a pena.
